A casa-escritório da escritora Maria Eugênia Mourão já sediou festas particulares, pequenos saraus e encontros literários.
Desde ontem, porém, o galpão de 200 metros quadrados incrustado na Bela Vista funciona como galeria de arte: cerca de 150 obras assinadas por 30 jovens artistas ocupam as paredes da casa, do chão ao teto.
Trata-se da terceira edição do projeto Arte em Casa, desenvolvido pelo galerista/marchand Tato Di Lascio. Criada no ano passado, a iniciativa ocupa espaços residenciais, íntimos, com exposição e venda de obras.
O nível dos trabalhos varia muito (vale a pena, por exemplo, prestar atenção aos nanquins de Alice Freire ou às montagens fotográficas de Guilherme Maranhão).
Mas, arte à parte, o espaço por si só já vale visita. Até ser comprado por Maria Eugênia há cerca de um ano e meio, o galpão dos anos 1960 funcionava como uma autorizada para conserto de máquinas de lavar.
No ano passado, um projeto de reforma assinado pelo arquiteto Arthur Casas deu ao espaço um ar moderno, com bastante concreto aparente. A decoração, retrô com toques kitsch, mistura-se com as obras, de modo que às vezes é difícil separar o que é casa e o que é exposição.
Os trabalhos sobem pelas paredes, ao longo dos quatro metros de pé-direito. Alguns estão posicionados em cantos inusitados da casa, e por entre eles circulam os dois vira-latas de Maria Eugênia -o visitante distraído pode achar que se trata de uma performance.
Diferentemente do que acontece numa galeria convencional ou num museu, a contemplação das obras se mistura com outros processos: sentar no sofá, tomar um café.
“O projeto é para ser uma experiência também para quem recebe”, diz o galerista, que conheceu Maria Eugênia numa festa. Ela frequentou as edições anteriores do Arte em Casa até oferecer a sua para a atual coletiva. Para preservar (um pouco) sua privacidade, as visitas acontecem somente aos sábados, com agendamento.
Antes da inauguração propriamente dita, o espaço foi usado para dois jantares oferecidos a jovens colecionadores. Entre risotos e vinhos, vários saíram carregando suas próprias obras debaixo do braço. O cardápio italiano se justifica: a poucas quadras do galpão, ficam duas das padarias/rotisserias italianas mais importantes da cidade: a Basilicata e a Italianinha.
Mas o cenário típico do bairro -cortiços, cantinas, botecos e comércio popular- divide agora o espaço com uma cena noturna alternativa (o clube Glória foi uma espécie de pioneiro ao se instalar na região em 2006).
Fonte: Folha de S. Paulo

